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Dores pós-cirurgia: fique atento aos sinais no seu gatinho

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Publicado em 9/5/2018               Publicado originalmente na AUN-USP - Por Juliana Santos 

 

A dor é considerada quarto sinal vital para a medicina veterinária. Nos casos de dor pós-operatória, ocorrida depois de um procedimento cirúrgico, a preocupação é ainda maior: se não tratada da maneira correta, pode evoluir para uma dor crônica, que se estende por vários meses e afeta seriamente a qualidade de vida do paciente. Por isso, ficar atento aos sinais que seu animal de estimação demonstra pode evitar grandes problemas no futuro.

No entanto, gatos domésticos são uma espécie singular em sua expressão da dor. Ainda hoje, apesar de grandes avanços médicos, existe uma dificuldade compartilhada por tutores e médicos veterinários para reconhecer, entender e tratar a dor. Nesta área, se entende que ainda existe uma grande deficiência da medicina quanto à dor na espécie — e, portanto, tem-se a necessidade de estudá-la a fundo. Em artigo publicado na Brazilian Journal of Veterinary Research and Animal Science, pesquisadores da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP explicam esta dificuldade e as maneiras já encontradas para identificar a dor e seu grau nos felinos.

“Precisamos desconstruir a ideia de que os gatos são cães pequenos.”, conta Marco Aurélio Pereira, doutorando em Clínica Cirúrgica Veterinária pela FMVZ-USP, que assina o artigo.  “A espécie felina apresenta particularidades como a expressão da dor. Estes animais, em maioria, apresentam comportamentos mais específicos e silenciosos do que os cães, além de seus parâmetros fisiológicos como a frequência cardíaca e respiratória, temperatura e pressão serem mais facilmente influenciados por outros fatores que não a dor”.

Isso implica que donos de gatos precisam ter atenção redobrada com seus bichinhos, especialmente em períodos como o pós-operatório, no qual a dor é mais comum. A identificação precoce da dor, através do reconhecimento de alterações comportamentais e físicas do animal, pode significar um tratamento mais pontual, prevenindo que ela se torne crônica.

São muitas as possíveis alterações no comportamento de um gato, podendo variar de acordo com as características de cada um. A variação pode ocorrer também por fatores externos, não relacionados à dor. Todavia, são estes alguns a que devemos prestar atenção:

  • diminuição ou aumento na alimentação;
  • ingestão de água escassa ou excessiva;
  • ganho ou perda de peso;
  • sonolência ou hiperatividade;
  • maior carência com os donos ou isolamento;
  • aumento da agressividade;
  • alterações nas fezes e urina.

Ao identificar sinais de que seu gato está sentindo dor, é sempre necessário procurar um médico. Medicar o animal por conta própria, alerta Pereira, “é extremamente arriscado”. Ele completa, com relato de sua experiência como veterinário: “Atendemos inúmeros casos graves, inclusive de mortes, por uso de fármacos proscritos, ou mesmo de erro de dose ou frequência de administração para a espécie felina.”

O protocolo mais comum para o tratamento da dor, após a consulta veterinária, é o uso de analgésicos. É quando grande parte dos tutores pode se amedrontar, devido aos já conhecidos efeitos colaterais da maioria dos analgésicos tradicionais. De fato, como explica o pesquisador, o organismo dos felinos difere muito de outros animais quanto à metabolização destes medicamentos. O período de meia-vida (tempo para a eliminação total do analgésico no corpo do animal) tende a ser mais longo, gerando maior risco de efeitos colaterais. No entanto, isto não é motivo para fugir do veterinário: “A presença destes fármacos é minimizada quando os analgésicos são utilizados de forma devida, ou seja, na situação adequada, com dose, frequência e via de administração específicas”, explica Pereira.

Existe, ainda, uma diversa gama de tratamentos alternativos que podem auxiliar na recuperação do gato, e que têm ganhado popularidade entre os donos. Técnicas de reabilitação, como a acupuntura e a fitoterapia, são indicadas para diversas afecções, e têm grande espaço na medicina veterinária.

Como tutor de um animal de espécie tão particular quanto o gato, é de grande responsabilidade ter atenção aos sinais que ele apresenta. Como conta o pesquisador, “Os tutores de gatos, em geral, são bastante cuidadosos e atentos quanto aos seus animais de estimação. Por muitas vezes eles nos ajudam a detectar os sinais de dor, principalmente na dor crônica, pois os gatos costumam melhor demonstrar estes em seus lares, local onde se sentem seguros. É extremamente importante que tenham atenção e relatem ao Médico Veterinário as mudanças de comportamento”.

O veterinário também precisa se atentar e examinar seriamente tais sintomas. “Nós, por ética profissional, precisamos lidar com a dor como um sinal vital, e estar cientes de que a presença desta gera inúmeras alterações em diversos sistemas do organismo e deve ser de pronto tratada e, sempre que possível, evitada”.