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Psitacose: os perigos pouco conhecidos de se ter uma ave de estimação

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Infecções causadas pela C. psittaci são mais frequentes em psitaciformes, grupo que engloba muitas das aves de estimação Imagem: Vivian Lindmayer Ferreira

 

Publicado originalmente por Agência Universitária de Notícias (AUN) da ECA-USP em 12/6/2017 - Por Fredy Alexandrakis 

 

Talvez seja a primeira vez que você ouve falar nela. Com sintomas que podem ser inespecíficos, a psitacose é uma doença que há muito tempo passa despercebida dos diagnósticos, frequentemente confundida por uma simples gripe. No entanto, uma pesquisa recente realizada pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP (FMVZ-USP) em parceria com o Instituto de Infectologia Emílio Ribas (IIER) analisou pacientes suspeitos da doença e registrou que 27% deles eram soropositivos para a bactéria Chlamydia psittaci.

Desses casos, 100% tinham algum contato com aves, seja em casa ou no trabalho. Isso porque a psitacose é também uma zoonose, ou seja, uma doença que acomete tanto animais quanto humanos. Nas aves, a C. psittaci pode levar a desenvolver a clamidiose aviária, embora também seja comum que elas sejam portadoras da bactéria sem apresentar sintomas. Na análise de Vivian Lindmayer Ferreira, do Departamento de Patologia (VPT) que conduziu a pesquisa no desenvolvimento de seu doutorado, a prática brasileira de se possuir aves de companhia (existem cerca de 37,9 milhões de aves pet no Brasil, de acordo com dados de 2013 do IBGE), combinada com a inespecificidade dos sinais clínicos da psitacose, indica que há muitos mais casos do que os que são de fato registrados no país.

Além disso, infecções causadas pela C. psittaci são mais frequentes em psitaciformes, grupo que engloba muitas das aves de estimação (como araras, cacatuas, papagaios, calopsitas, periquitos). Ferreira descobriu ainda que, dos casos citados, todos mantinham relações de grande proximidade com as aves: 100% as pegavam na mão, 67% as colocavam no ombro, 40% as beijavam e 13% dividiam alimento com elas. Isso é preocupante, uma vez que a contaminação ocorre através da inalação da bactéria, liberada de forma intermitente pelas aves nas suas excretas (como, por exemplo, suas fezes).

Como medida de prevenção, Ferreira alerta para o manejo correto desses animais. Vários fatores podem tornar a ave e o proprietário vulneráveis. Ela aconselha que, por exemplo, se troque o forro das gaiolas das aves com alguma frequência, tomando o cuidado de  umedecê-lo ou usar uma máscara de proteção durante esse processo, de modo tal a evitar a inalação do pó de excretas ressecadas. Outras recomendações incluem a realização de exames nas aves antes de incluí-la ao lar ou a um grupo já estabelecido de animais, e o acompanhamento da dieta adequada desses pets. A estudiosa traz o conceito de “saúde única” (que engloba a saúde animal, humana e ambiental) para explicar esses cuidados: “Precisamos ter um olhar abrangente, não uma visão linear, que recai só sobre aquele hospedeiro, mas, sim, sobre todo o ambiente e todos os envolvidos no contato com aquele animal”.

 

Médicos precisam ser conscientizados

Parte do obstáculo ao diagnóstico correto dos casos de psitacose provém do quão desconhecida a doença ainda é, mesmo entre os médicos. Ferreira não defende que todos os pacientes que apresentem sintomas parecidos com os de uma gripe sejam testados para a psitacose, entretanto, uma atenção especial é indicada para aqueles que tenham contato próximo ou rotineiro com aves. Isso exige que o profissional médico pergunte ao paciente se ele possui aves de estimação ou tem algum tipo de contato ocupacional com aves, já que, muitas vezes, ele não considera relevante apresentar essa informação.

O diagnóstico correto e precoce também é importante porque a Chlamydia psittaci é combatida com um tipo específico de antibiótico — não o mais comumente prescrito no tratamento de uma pneumonia bacteriana. Alguns pacientes, em especial aqueles com baixa imunidade, podem apresentar sintomas mais graves, desenvolvendo pneumonia ou até mesmo sendo levados à óbito, caso a doença não seja corretamente diagnosticada e tratada.

 

Legislação sanitária é falha

Estudos realizados por sua orientadora, Tânia Raso, indicam que clamidiose aviária é endêmica no Brasil. A legislação sanitária defasada tem um papel expressivo nessa prevalência, relata Ferreira: “O Programa Nacional de Sanidade Avícola engloba apenas as aves de produção, uma vez que estas têm um impacto grande na economia. Em aves pet, ainda não se tem uma regularização”. A pesquisadora ressalta a importância de normas que regulem o manejo sanitário e as instalações onde são mantidas as aves, tanto por sua saúde quanto por seu bem-estar. A avaliação por um médico veterinário das aves introduzidas ao plantel, os exames diagnósticos, assim como a quarentena adequada, a não-aglomeração dos animais e o manejo nutricional correto são algumas das medidas que podem ajudar a impedir a disseminação da bactéria.